Ingrid Bergman em CasaBlanca ou
Michelle Pfeiffer, a Suzie de Bakers Boys,
de boca rubi, rosto alvo, azul, vestido vermelho
no corpo perfeito e makin' whoopee sobre o piano.
Talvez Rosa Púrpura do Cairo. Olhar fixo de Cecília
na tela. Tantas sessões de cinema. Chama avivada
em cada. Juntar o fascínio de um menina do interior...
"Jamais réel e toujours vrai.
[Nunca real e sempre verdadeiro]"
Rimbaud
[Nunca real e sempre verdadeiro]"
Rimbaud
Paredes. Distância dos braços abertos. Teto rente. Cela. Pressão da angústia. O arfar, arritmia. Corpo alquebrado na cama. Extenuado, sem posição. Lençol úmido, amarfanhado.
Madrugada longa, arrastada. Quase manhã. Sono falso a cerrar as pálpebras. Sobressaltos. Nada além da espera do dia.
Abriu a janela. Ainda o ar da noite fria. O outro lado da rua, parede. Ruído interminável da avenida, espremido. Corredor de prédios a ampliar, campana. O silêncio confuso da noite.
Procurou a estante. Folheou. Ansiedade, texto. Conflitantes na leitura. Páginas corridas sem atenção. Desinteresse a incomodar. Então o note. Vício urdido do dia. Abriu nos joelhos. Ficou à deriva também. E tinha o mundo ali.
A prosa. Enfiou-se no meio. Evasivo, reticente. Acabou à margem, impaciência. Apontou para o off. Prosseguiria não fosse a voz. Levantou a cabeça, procurou. Mero reflexo. Talvez estivesse a ouvir letras. Bilac ouvia estrelas. Delírio do insone. Do corpo a reclamar. Conteve o gesto, esperou.
Frágil, a voz se expôs sem meias palavras. Confessou antes mesmo de se apresentar. Porque confessar é um ato de remissão, liberdade. Mas a si. Pouco importa quem ouça, desde que ouça. Ele escondeu a curiosidade. Braços cruzados, descaso do cético à vida. Aparentou para esconder a ironia.
Exposição, nudez escancarada. Limites desmedidos. Permanecia impassível. Somava o dilema de quem precisava de olhar nos olhos para ouvir. Para contar. Palavras. Não soubessem ser lidas, não haveria o gestual por complemento. Prosseguiu. Havia tristeza, entrelinhas. Mas sem a arrogância da infelicidade. Acabou se entregando. Mesmo com o incômodo da lucidez. Refém da compaixão, desculpa perfeita.
Suzie, Bakers Boys. Michelle Pfeiffer. Boca rubi. Rosto alvo, azul. Vestido vermelho no corpo perfeito. Makin' Whoopee sobre o piano.
Há muito não questionava. Nem percebeu os dias insossos. O desconforto da ausência. Os vazios insistentes. A trama passou a ser explícita. Amoral, adolescente.
Ingrid. Olhos verdes, cachos. Rick Blaine a esperar Ilsa Lund. Victor Lazlo na resistência theca. Talvez. As Time Goes By, Sam. Dooley Wilson ao piano. Bogart no Rick's.
Cidade pequena, sol em Capricórnio. Praça, sombra do arvoredo mudo. Ar de vinhoto. Inércia de dias indiferentes. Vidraças abertas a olhar a solidão da rua. Toda. Até o dia de pagamento do pessoal na usina.
Tédio de caixa de música. Bailarina, valsa batida. Nada além do vestido de noiva. Ironia da predestinação, confronto ao sonho. Vida a rolar na quermesse. Bandeirolas do Volpi. Luzes de festa. Nada mais emocionante além de se entregar num banco de carro. Diferenças niveladas. Se existissem.
Ela descobriu outro mundo. Escancarado na vertigem das palavras. Imprevisto. Cheio do atrevimento do anonimato. Uma novela, ilusão dos sentidos. Viver o real, a verdade. O irreal sem ser uma mentira, vivido também. Passou a temer o dia seguinte. A imagem da caixinha de música.
Rosa Púrpura do Cairo. Olhar fixo de Cecília na tela. Tantas sessões de cinema. Chama avivada em cada. Tudo o que tinha era uma cidade perdida no canavial. A necessidade de ser se impunha.
Tom Baxter. Mia nos braços do herói. Gil Sheperd. Desejo de se despir do ranço até descolar o herói do plano da tela. Aproximar os rostos. As bocas. Corte lamentado a insinuar o beijo enamorado. Cena seguinte. Suspense.
Não via diferença entre os dias miseráveis de Vivian Ward, Cecília. Em cada quadro tinha o resgate impossível do sonho mais íntimo. A ilusão de se perder em Tom Baxter. Precisava da ilusão.
Tomou coragem. Caminhos incertos, desalinhados. Ela os buscou. Perguntou quem era. Ele respondeu com pouco caso. Então desatou a contar.
Marcaram em Casa Blanca. Poderia ter sido em Chicago. Suzie Diamond. Sensual, agressiva. As dúvidas de Ilsa pareciam mais às suas. Mesmo assim não sabia quem ia encontrar.
Passaporte carimbado. Lado da janela. Bimotor. DC3, 1942. Sem outros detalhes. Alguns fiapos de nuvens. Esgarçadas pelos motores. Avião a romper a serenidade. Pensamentos perdidos.
O solo de saxofone. A emoção que o sopro mentia. Às tantas deixou o bar. Nenhuma bebida. Calçada interminável até o prédio velho. Pastilhas mescladas, manchas decadentes escorridas nos peitoris. Tranco do elevador, quietude rompida. Cuidado a cada volta da chave. Não queria incomodar, esticar assunto por esticar.
Linear. Indolente. Viveu assim. Isso incomodava agora. Queria o topo. Não construiu. Nem os dias comuns. Partiu da premissa que o sucesso viria da qualidade da sua arte. Sem as nódoas da conquista. Na ambição de viver um grande arranjo, conseguiu o do tamanho da sua vida. Não aceitava, nem soube superar os limites. Os da vida, não os da música. Parecia que a vida tinha obrigações por ter depositado o dom nas suas mãos. Preferiu culpar.
Precisava de ritmo, arejar. Sem a música seria insuportável. Mesmo a repetida até a exaustão, mecânica. Sentia um prenúncio de fim na relação. Não ia além. Não havia outro começo para se agarrar. Ela não parecia perceber o desgaste. Isso o irritava.
Olhou o quarto. Fragrância a ocupar os sentidos. Na penumbra tinha seus contornos nos lençóis. Dormia delicada, respirar calmo. Parecia sonhar com a felicidade. Nunca soube da solidão dela enquanto ele estava à música. Apenas que ela deixava de existir.
Teria sido mais fácil em Madri. Mas precisava do encanto. Marrocos era feito de encantos. Vôo lotado. Deixou-se vagar, aos pensamentos. Medo de avião. Gibraltar, Tanger. Casa Blanca. Mistérios, curiosidade. A magia. O ocidente precisava dela para sonhar.
Canto escondido em algum lugar. Detalhe da Mesquita de Hassan. Banco de cacos cerâmicos. A velha locomotiva perdida no meio da praça. Casa Blanca do filme. Atravancado de cenários. Nunca essa Dar-el-Beida.
Chegou tensa. Passos curtos, inseguros. Mesmo roteiro, filme antigo de Hollywood. Nunca pensou que pudesse. Olhou o entorno. Preocupada. Desistir de um impulso. Talvez. Da decisão jamais. Ladeira suave. Olhos de Ingrid. Medo do encontro. Da imagem a trair a imaginação. Da decepção de uma frase terminal.
Beijo no rosto. Depois seguiram calados. Havia algum constrangimento.
Ela descobriu outra mulher. Segredos nunca traídos pelas palavras. Não conhecia. Pensava que sim. Que tanto restaria não houvesse o velado. Souberam quando se renderam. Ela o quis. Atrevida nem perguntou. Tomaram posse dos corpos. Arrebatamento. Paixão, desejo, ofego. Então existiram.
Imensa cama profana. Alcoviteira. Lençóis a emboscar nas dobras. Amantes. Sem haver lá fora. Nem o vento do outono. Paredes cúmplices. Como devem ser paredes. Vadias. Inconseqüentes. A abrigar uma noite curta. Sempre.
A manhã. Única, não derradeira.
Deixaram palavras. Mentiram no abraço. O beijo nunca cicatrizou nos lábios. Curto. Rosto escorrido de adeus. Rua vazia de um domingo perdido no calendário. Ladeira da véspera. Ela levou a noite na mochila. Levaria todas. Sabia que ia ser assim.
Cena em slowmotion. Muda. Platéia em suspense. O dilema. Avião para Lisboa. Não se voltou na escada. Como em Casa Blanca. A imagem de Rick se diluindo na neblina.
Os olhos insones evitavam a luz da persiana. Fixavam o teto. Ela o chamou para o café. Trazia no rosto o descanso da noite bem dormida. Talvez o encanto de quem tinha chegado de Casa Blanca.
Madrugada longa, arrastada. Quase manhã. Sono falso a cerrar as pálpebras. Sobressaltos. Nada além da espera do dia.
Abriu a janela. Ainda o ar da noite fria. O outro lado da rua, parede. Ruído interminável da avenida, espremido. Corredor de prédios a ampliar, campana. O silêncio confuso da noite.
Procurou a estante. Folheou. Ansiedade, texto. Conflitantes na leitura. Páginas corridas sem atenção. Desinteresse a incomodar. Então o note. Vício urdido do dia. Abriu nos joelhos. Ficou à deriva também. E tinha o mundo ali.
A prosa. Enfiou-se no meio. Evasivo, reticente. Acabou à margem, impaciência. Apontou para o off. Prosseguiria não fosse a voz. Levantou a cabeça, procurou. Mero reflexo. Talvez estivesse a ouvir letras. Bilac ouvia estrelas. Delírio do insone. Do corpo a reclamar. Conteve o gesto, esperou.
Frágil, a voz se expôs sem meias palavras. Confessou antes mesmo de se apresentar. Porque confessar é um ato de remissão, liberdade. Mas a si. Pouco importa quem ouça, desde que ouça. Ele escondeu a curiosidade. Braços cruzados, descaso do cético à vida. Aparentou para esconder a ironia.
Exposição, nudez escancarada. Limites desmedidos. Permanecia impassível. Somava o dilema de quem precisava de olhar nos olhos para ouvir. Para contar. Palavras. Não soubessem ser lidas, não haveria o gestual por complemento. Prosseguiu. Havia tristeza, entrelinhas. Mas sem a arrogância da infelicidade. Acabou se entregando. Mesmo com o incômodo da lucidez. Refém da compaixão, desculpa perfeita.
Suzie, Bakers Boys. Michelle Pfeiffer. Boca rubi. Rosto alvo, azul. Vestido vermelho no corpo perfeito. Makin' Whoopee sobre o piano.
Há muito não questionava. Nem percebeu os dias insossos. O desconforto da ausência. Os vazios insistentes. A trama passou a ser explícita. Amoral, adolescente.
Ingrid. Olhos verdes, cachos. Rick Blaine a esperar Ilsa Lund. Victor Lazlo na resistência theca. Talvez. As Time Goes By, Sam. Dooley Wilson ao piano. Bogart no Rick's.
Cidade pequena, sol em Capricórnio. Praça, sombra do arvoredo mudo. Ar de vinhoto. Inércia de dias indiferentes. Vidraças abertas a olhar a solidão da rua. Toda. Até o dia de pagamento do pessoal na usina.
Tédio de caixa de música. Bailarina, valsa batida. Nada além do vestido de noiva. Ironia da predestinação, confronto ao sonho. Vida a rolar na quermesse. Bandeirolas do Volpi. Luzes de festa. Nada mais emocionante além de se entregar num banco de carro. Diferenças niveladas. Se existissem.
Ela descobriu outro mundo. Escancarado na vertigem das palavras. Imprevisto. Cheio do atrevimento do anonimato. Uma novela, ilusão dos sentidos. Viver o real, a verdade. O irreal sem ser uma mentira, vivido também. Passou a temer o dia seguinte. A imagem da caixinha de música.
Rosa Púrpura do Cairo. Olhar fixo de Cecília na tela. Tantas sessões de cinema. Chama avivada em cada. Tudo o que tinha era uma cidade perdida no canavial. A necessidade de ser se impunha.
Tom Baxter. Mia nos braços do herói. Gil Sheperd. Desejo de se despir do ranço até descolar o herói do plano da tela. Aproximar os rostos. As bocas. Corte lamentado a insinuar o beijo enamorado. Cena seguinte. Suspense.
Não via diferença entre os dias miseráveis de Vivian Ward, Cecília. Em cada quadro tinha o resgate impossível do sonho mais íntimo. A ilusão de se perder em Tom Baxter. Precisava da ilusão.
Tomou coragem. Caminhos incertos, desalinhados. Ela os buscou. Perguntou quem era. Ele respondeu com pouco caso. Então desatou a contar.
Marcaram em Casa Blanca. Poderia ter sido em Chicago. Suzie Diamond. Sensual, agressiva. As dúvidas de Ilsa pareciam mais às suas. Mesmo assim não sabia quem ia encontrar.
Passaporte carimbado. Lado da janela. Bimotor. DC3, 1942. Sem outros detalhes. Alguns fiapos de nuvens. Esgarçadas pelos motores. Avião a romper a serenidade. Pensamentos perdidos.
O solo de saxofone. A emoção que o sopro mentia. Às tantas deixou o bar. Nenhuma bebida. Calçada interminável até o prédio velho. Pastilhas mescladas, manchas decadentes escorridas nos peitoris. Tranco do elevador, quietude rompida. Cuidado a cada volta da chave. Não queria incomodar, esticar assunto por esticar.
Linear. Indolente. Viveu assim. Isso incomodava agora. Queria o topo. Não construiu. Nem os dias comuns. Partiu da premissa que o sucesso viria da qualidade da sua arte. Sem as nódoas da conquista. Na ambição de viver um grande arranjo, conseguiu o do tamanho da sua vida. Não aceitava, nem soube superar os limites. Os da vida, não os da música. Parecia que a vida tinha obrigações por ter depositado o dom nas suas mãos. Preferiu culpar.
Precisava de ritmo, arejar. Sem a música seria insuportável. Mesmo a repetida até a exaustão, mecânica. Sentia um prenúncio de fim na relação. Não ia além. Não havia outro começo para se agarrar. Ela não parecia perceber o desgaste. Isso o irritava.
Olhou o quarto. Fragrância a ocupar os sentidos. Na penumbra tinha seus contornos nos lençóis. Dormia delicada, respirar calmo. Parecia sonhar com a felicidade. Nunca soube da solidão dela enquanto ele estava à música. Apenas que ela deixava de existir.
Teria sido mais fácil em Madri. Mas precisava do encanto. Marrocos era feito de encantos. Vôo lotado. Deixou-se vagar, aos pensamentos. Medo de avião. Gibraltar, Tanger. Casa Blanca. Mistérios, curiosidade. A magia. O ocidente precisava dela para sonhar.
Canto escondido em algum lugar. Detalhe da Mesquita de Hassan. Banco de cacos cerâmicos. A velha locomotiva perdida no meio da praça. Casa Blanca do filme. Atravancado de cenários. Nunca essa Dar-el-Beida.
Chegou tensa. Passos curtos, inseguros. Mesmo roteiro, filme antigo de Hollywood. Nunca pensou que pudesse. Olhou o entorno. Preocupada. Desistir de um impulso. Talvez. Da decisão jamais. Ladeira suave. Olhos de Ingrid. Medo do encontro. Da imagem a trair a imaginação. Da decepção de uma frase terminal.
Beijo no rosto. Depois seguiram calados. Havia algum constrangimento.
Ela descobriu outra mulher. Segredos nunca traídos pelas palavras. Não conhecia. Pensava que sim. Que tanto restaria não houvesse o velado. Souberam quando se renderam. Ela o quis. Atrevida nem perguntou. Tomaram posse dos corpos. Arrebatamento. Paixão, desejo, ofego. Então existiram.
Imensa cama profana. Alcoviteira. Lençóis a emboscar nas dobras. Amantes. Sem haver lá fora. Nem o vento do outono. Paredes cúmplices. Como devem ser paredes. Vadias. Inconseqüentes. A abrigar uma noite curta. Sempre.
A manhã. Única, não derradeira.
Deixaram palavras. Mentiram no abraço. O beijo nunca cicatrizou nos lábios. Curto. Rosto escorrido de adeus. Rua vazia de um domingo perdido no calendário. Ladeira da véspera. Ela levou a noite na mochila. Levaria todas. Sabia que ia ser assim.
Cena em slowmotion. Muda. Platéia em suspense. O dilema. Avião para Lisboa. Não se voltou na escada. Como em Casa Blanca. A imagem de Rick se diluindo na neblina.
Os olhos insones evitavam a luz da persiana. Fixavam o teto. Ela o chamou para o café. Trazia no rosto o descanso da noite bem dormida. Talvez o encanto de quem tinha chegado de Casa Blanca.
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