"Na terra seremos rainhas
e de verídico reinar
e sendo grande nossos reinos
chegaremos todas ao mar"
Desolación, Gabriela Mistral
Avião. Parecia parado. Apenas um som de motor. Constante, monótono, longe. Ao lado uma mulher. Perfume suave, doce. Mãos delicadas, leves. Ligeiras no teclado do note. Escrevia, apagava. Repetidas vezes.
Olhava de soslaio. Fone de ouvido. Nem ouvia a música. Olhos quase cerrados. Apertados, fingidos. Tinha o assunto, não a coragem. Mas precisava ser rápido. Restava menos de meia hora. A restinga da Marambaia se abria como num atlas. Logo o Santos Dumont.
Ofereceu um café. Ela sorriu. Recusou sem tirar os olhos da tela. Cafeína. Estava tensa. Confessou a ele, a todos, a ninguém. Genérica, desatenciosa. Mal via a hora do desembarque. Mesmo assim ele se aproveitou. Tomaram o mesmo táxi.
Sol cáustico. Caravana, o ladrar dos cães. Mercadores. O homem traindo o homem. Fila atada pelos passantes dos colares de ferro. Chagas do metal a ferir o cangote. Andar arrastado. Músculos, ossos articulados por contração espasmódica. Sequer reação à dor. Morte por ausência.
Ao rebordo do Atlântico. Jornada cruel. Castigo vazando pela porta da África. Pouco se comparado ao que o mar traria. Castro Alves. Navio negreiro. Mercado a leiloar as almas. Havia mais generosidade com as bestas. Depois a prisão perpétua nos canaviais.
A alforria, ilusão. Apenas se peso morto. Então as calçadas do puteiro. Por esmola. Negras embriagadas lamentando uma história inconclusa. Pouco adiantavam rimas de poeta temperando o desterro, a dor. Como se pudessem entender cada linha. Os negros e os poetas.
Porão entulhado. Calor, sufoco. Corpos luzidios, suor. Panos enrolados na cintura. Nudez singela. Na aldeia por hábito. Ali, mal menor. Urina escorrendo no chão ao balanço da proa. Ela dormia num rolo de cordas. A irmã junto. Gêmeas univitelinas. Não sabiam que traziam o dom.
Cordão no pescoço. Pingente entre as pregas dos seios flácidos. Não viram. Sequer ela se lembrava na agonia do corpo escravizado. Trouxe o dragão de jade. Junto a magia. Mas a agonia do corpo era maior. Willemstad, Curaçao. Aportou como mercadoria. Mauritsstad, Brasil. Onde sua irmã foi vendida. Nada além de canaviais.
Norte, oriente. Altivez de um guerreiro. Campeão negro do imperador amarelo. Havia cruzado o deserto e retornado. Orgulho da valentia da tribo. Mesmo sem terem ouvido da China. O final do mundo cabia no começo do areal.
O dragão de jade veio com a lenda. Mas sem o dom não havia a magia. Então o poder fluía. Estava no imperador. Mas também no negro. O filho do céu jamais viu sua semelhança no reles mortal que o servia.
Não sabiam quantas gerações veneraram a peça. Nem mais por que. As sacerdotisas daquela tribo portavam o mistério. Mas não eram únicas. Apenas que os homens prezavam o carnal. Consagravam o bruto, a virilidade ao ancestral. A lenda perdeu pelo caminho os rastros de quem portou o dragão de jade pela primeira vez. Por ter o dom. As fraquezas do amor ficaram às mulheres. Como se eles fossem imunes. Matavam por honra alegando posse. Jamais por ciúme alegando amor.
Mais suscetíveis no amparo do dom. O amor externado na forma de mãe. Depois no de mulher. Mas passíveis de serem traídas pela paixão. Aos homens, a guerra. Maior que a paixão. Ou fuga. Às mulheres, as transformações da alma. Naturais, incondicionais. Assim como o dom, inevitável.
Dinastia. Sem cisma se o nascimento trouxesse a dádiva a quantas viessem de um mesmo útero. Trilha dividida. A vida reuniria tudo à frente. Simples. Não havia poder único na guarda.
Segredo desvelado na iniciação. À deusa oferendaram o signo. Ela o usava como usaria qualquer objeto em que os homens acreditassem.
Oi,
ninguém além de você entenderia este e-mail. Tudo foi rápido. Menos que uma tarde. Efêmero. Achei injusto. Nada me aquietou depois.
O aeroporto fervilhava. Trânsito nos corredores. Corpos se tocando. Ambos juntos, rentes. Adrenalina. Sentiu o respirar dele. Voltou o olhar. Marilyn, ferina, intencional. Atraiu. Ficaram em Ipanema. Travessa discreta. Hotel alcoviteiro. Não era ela. Era quem desejava ser. Foi assim até o adeus.
Comum. Percebeu logo. Mas projetou nele a imaginação. Ele não entendeu. Início, fim. Tão próximos. Script escrito no ar morno de uma cidade pequena. Há algum tempo.
Saciada. Fim da fantasia. Despedida rápida. Simples. Como a se livrar de um desconforto. Deixou um e-mail, folha dobrada. Saiu naquela tarde carioca. Calçadão cheio. Mar calmo. Não os pensamentos. Depois seguiu num táxi.
Era indiferente quem estivesse naquela poltrona. Detestou a vida. A que construiu. Mas havia costurado outra. Falsários. Ele passou a viver a mentira. Ela quis se despir da sordidez. Mas não se despiu.
Os dias que se seguiram não se preencheram. Nem as noites. Uma, insuportável. Corpo exaurido a se debater na cama rala. Hotel de segunda. Não poderia ser outro. Vendedores. Gente de custo barato. Como eu.
Solidão dolorida. Medida em olhos fitos. Cubículo a oprimir. Transformou o cansaço em insônia, pensamentos em inferno. Insistentes, obsessivos. Precisava de ar. Sentir a vida exercer a sorte.
A noite da orla se esvaziava. O motorista do táxi seguiu ao porto. Penumbra suspeita. Portas ao longo. Raro, o luminoso denunciava um bar. Fiquei em qualquer espelunca.
Ruas caladas. Paralelepípedos desarrumados. Maresia. Lixo amontoado nos pés dos postes. Cenário de suspense. Depois a escada estreita. Íngreme. Carpete pegajoso, puído. Cordame aparente, desfiado. Pelúcia vermelha ruça. Cheiro acre exalado no ar viciado. Úmido, azedo. Fumaça traída pelos focos de luz. Esgueirou-se rente. Discreto. Rato.
Bêbados, prostitutas. Estava deslocado. Encolhi a mesa na sombra de uma coluna.
The Blue Velvet. Willis Jacson. O saxofonista embriagado podia ser. Soprava longe, palco perdido. Talvez num cabaré de Hollywood.
Pintura exagerada. Borrada no rodar da noite. Pupilas negras pinçadas por olhos amendoados. Americanos. Seguiram cada movimento. A mestiçagem escondia o destino.Cheiro de creme barato. Melando. Corpo de mulher vivida. Seguia o padrão.
Rasgo, metade da coxa. A pele nua da perna. Vestido justo. Acinturado. Zíper tenso desde os quadris largos. Seios firmes, bonitos. Cabelos cacheados, negros. Lábios grossos. Rosto abaixado, olhar para cima. Mas sem arrogância. Apenas para intimidar. Dominar. A sensualidade exercendo o controle.
Sotaque espanhol, dialeto. Havia algum português nele. Sentou-se ao meu lado. Insinuante. Artes do ofício.
Uísque a desinfetar o copo. Indiferença fingida. Parte da regra. Depois suspiro mentido compondo a cena. Comum. Como ambos. Sabiam. Mas ele não buscava a fêmea. Não poderia confidenciar as dores. Dos dias. Do coração. Precisava da companhia.
Teve que ouvir cada lamento meu. Como de todos.
Sabia dos atalhos. Mero negócio. Percebeu a persistência da ausência. E o desejo ligado a ela. Preencher o vazio. Fazer com que fosse ignorado. Teve que avaliar.Outros dois uísques. A ausência acabou por se diluir na bebida. Não havia mais sobriedade a se perder na libido. Na provocação sem pudor. Tinhosa, ela abriu um botão, expôs o recôndito dos seios. Transpirava sensualidade. Foi quando revelou o dragão de jade na pele morena. Os olhos dele devoraram a peça. Não entendeu a fixação. Ela percebeu o falsear.
Delicada, não insistiu. Mas precisava faturar. Esvaziou a bolsa. Com algum despeito. Badulaques caíram entre as marcas de copos. Dragões de jade. Ofereceu um pelo preço da noitada. Bonito, ordinário, barato. Como ela. Condicionei a compra. Queria a lenda.
Franziu o rosto. Contrariada. Mas não restava noite para compensar. Alertou das conseqüências. O conhecimento a despertar a magia. Quaisquer fossem as palavras de quem tivesse o dom. Talismã criado de um objeto inerte. Por fim cedeu. Fez um sinal de pouco caso com os ombros. Maldição, sorte. Deixou à vida.
A paixão entre um negro e a concubina. Denunciaram. O imperador não o decapitou. Condescendência divina para quem havia lutado por ele. Mas não perdoou. Aprisionou as almas num dragão de jade. Ela foi confinada. O guerreiro expatriado.
A ausência, tortura. Castigo, o destino nas mãos. Algoz, o talismã. O inferno de um dilema entre partir a pedra e a liberdade provocada por isso. Tanto na palma da mão. Os olhos da concubina luzidios no brilho do jade. A envolver. A impedir. Decidiu pela paixão que consumia.
Encanto. Yu, o Dragão de Jade, protetor. A Tigresa Branca, amante. Oriente, não o ocidente incrédulo. Aeroporto de Curaçao ao lado. Último bordel. Havia trocado o papiamento pelo espanhol. Aprendeu, clientes. Da mãe. Depois com seus.
Antes da morte dela recebeu a caixa dos charutos. Cubanos. O que restava de uma vida. O dragão de jade dentro. Inevitável. Procurava quem possuísse o dom. Evitou pensar. Céptica. Precisava de um sonho. De uma paixão que a transportasse. Que ludibriasse a razão.
As histórias da avó. Dos ancestrais, Ghana. Das sacerdotisas de Nanã Akonedi Abena. Vodum, pó branco no corpo exposto, sagrado. Brajás. Saia de palha, torço na cabeça, rosto nu da justiça. A desatar feitiços, magias.
A iniciação. Derradeiro dia de vida da mãe. O poder de fazer a pedra fluir. Deixou-se mas não se importou. Continuou à deriva. África, lenda. Perdida no tempo. Avó, mãe, neta. Nada além. Apenas negras. Resto de escravidão. Bastava o que conseguiam do dia. Histórias contadas, tambu. Mas ela não lamentava. Nem conhecia outro jeito. Até encontrar o marinheiro português. Foi abandonada no Rio de Janeiro.
Contou da ferida aprisionada na jóia. Da proteção. Akonedi se opondo ao destino. Intuindo a desfazer o feitiço. A quebrar aquela pedra. Mesmo paga com indiferença. Conhecia os homens.
Executiva. Roupa bem talhada, discreta. Note, tiracolo. Ponte aérea Rio-São Paulo. Mesa pronta, sempre. Trabalho exaustivo. Da cabeceira fitava sobre os óculos. Aros dourados, finos. Mas sem arrogância. Apenas para intimidar. Ficava entre a admiração e o ódio.
Não que sua vida fosse dolorida. Até se conformava. Preenchia o projeto. Investiu nessa linearidade. Não havia alternativa. Entendeu com sobriedade.Papel do filho que o pai queria. Poderia ter querido a filha. Ela sempre soube. Firmou-se por competência. Antecipava os passos, negócios. Mais por intuição que lógica. Não entendia isso. Disciplinou o comportamento para esconder o dom. Abusava. Vencia sempre. Mesmo assim não se tornou o filho por quem o pai suspirava. Impôs-se por limite a beira dos erros. Além, cadafalso. Havia dureza pelo ressentimento.
O marido, homem do interior. Paixão de adolescência. Casamento cômodo. Marcado pelos objetivos dela. Não questionava. As regras do jogo entre ambos tinham lisura.Quadris largos. Seios firmes, bonitos. Cabelos cacheados, negros. Olhos amendoados. Lábios grossos. Brasileira. Mais a mãe. Do pai, a pele alva. Tudo confinado na austeridade. Mesmo as roupas. Sisudas, profissionais. Deixava o encanto em casa.
Indústria, máquina domesticada. Bancava a cidade pequena. Mãos delicadas, aço. Fez os dias até a rotina. Então as noites ficaram longas. Tempo de sobra. A vida teve esse tempo para cobrar o viver. Latente, a insistir.
Era uma madrugada de lua, varanda. Só. Mulher. Suspirou. Pela emoção da incerteza. Por labirintos, caminhos incertos, desalinhados. Por uma paixão. Um outro lado. Estava tentada a descobrir. Mas não o buscou. Apenas se deixou. Seguiu a intuição.Avião. Rio de Janeiro. De repente os dias prescritos ficaram remotos. Rascunhou o e-mail. Algumas vezes. Palavras doces, cruéis. A desistir de si. Do modelo. Mas não o fez. Sabia porque.
Um homem bonito. Quase elegante não fossem as roupas baratas. Percebeu o interesse. Aquiesceu. Sutil. Depois um sufoco. Nunca tinha vivido esta experiência. O olhar, a textura da pele, o hálito, a voz. Tudo mudou. Mãos suadas, garganta seca. Sensação tola furtada de um gibi. Adolescente dos anos dourados. Avião da Panair. Copacabana Palace. Quis ser personagem.
Estava na solidão da sua sala ao receber o pacote. Pequeno, pessoal. Leu o remetente. Sorriu. Trancou a porta. Um momento dela. Apenas. Relaxou no sofá. Releu o e-mail. Centésima vez. Rememorou cada detalhe do encontro. Intervalo de uma vida insana. Curto, suficiente. Excitou-se. Não era a intenção. Então o atrevimento da personagem. Tocou-se até o prazer. O orgasmo, final. Lavou-se como a se despir. Abriu a porta. Perfeita, inquestionável.
Envio o talismã. Quem sabe armadilha. Confio nos estranhos caminhos do acaso. Talvez haja mais. Mas pode ser que tudo não tenha passado de um conto. Derradeiro. Impossível.
Não importa. Eu me tornei refém da personagem. Prisioneiro por querer. Por entender ser isso o resgate do que me sobra. E sinto a dor de ter me perdido numa vida miserável. Maior do que a tortura da ausência. Assumi o sonho. O embaraço da dicotomia pelos dias afora.
A magia. A trama. Tanto a nos colocar juntos. A emoção de uma vida contida numa meia tarde. Pouco. Eu a tomei como se fosse eterna. Mas sem cumplicidade nada restara além do jade partido. Saiba porém que se a liberdade pouco valer, as lembranças, menos que um consolo, serão uma tormenta.
O avião decolou. Deu a volta na baia antes de tomar rumo. A mesma poltrona. Estava exaurido. Parecia sereno. Indiferente, desinteressado. Fábula da raposa e a uva. A alma fervia.
Espera passiva, resignação corrosiva, silêncio aflito, incerteza. Filme noir. Cenário de Blad Runner. Roteiro sórdido.
O dragão de jade jamais voltou. Perdido numa gaveta. Como estava perdido numa caixa de charutos cubanos.
A ponte. O reencontro das irmãs. Uma iniciação a ser cumprida. De quem chegou em Mauritsstad. Inevitável. Agora dependia apenas de que uma gaveta se abrisse. Akonedi tinha o tempo. Podia manipular sem pressa.
ninguém além de você entenderia este e-mail. Tudo foi rápido. Menos que uma tarde. Efêmero. Achei injusto. Nada me aquietou depois.
O aeroporto fervilhava. Trânsito nos corredores. Corpos se tocando. Ambos juntos, rentes. Adrenalina. Sentiu o respirar dele. Voltou o olhar. Marilyn, ferina, intencional. Atraiu. Ficaram em Ipanema. Travessa discreta. Hotel alcoviteiro. Não era ela. Era quem desejava ser. Foi assim até o adeus.
Comum. Percebeu logo. Mas projetou nele a imaginação. Ele não entendeu. Início, fim. Tão próximos. Script escrito no ar morno de uma cidade pequena. Há algum tempo.
Saciada. Fim da fantasia. Despedida rápida. Simples. Como a se livrar de um desconforto. Deixou um e-mail, folha dobrada. Saiu naquela tarde carioca. Calçadão cheio. Mar calmo. Não os pensamentos. Depois seguiu num táxi.
Era indiferente quem estivesse naquela poltrona. Detestou a vida. A que construiu. Mas havia costurado outra. Falsários. Ele passou a viver a mentira. Ela quis se despir da sordidez. Mas não se despiu.
Os dias que se seguiram não se preencheram. Nem as noites. Uma, insuportável. Corpo exaurido a se debater na cama rala. Hotel de segunda. Não poderia ser outro. Vendedores. Gente de custo barato. Como eu.
Solidão dolorida. Medida em olhos fitos. Cubículo a oprimir. Transformou o cansaço em insônia, pensamentos em inferno. Insistentes, obsessivos. Precisava de ar. Sentir a vida exercer a sorte.
A noite da orla se esvaziava. O motorista do táxi seguiu ao porto. Penumbra suspeita. Portas ao longo. Raro, o luminoso denunciava um bar. Fiquei em qualquer espelunca.
Ruas caladas. Paralelepípedos desarrumados. Maresia. Lixo amontoado nos pés dos postes. Cenário de suspense. Depois a escada estreita. Íngreme. Carpete pegajoso, puído. Cordame aparente, desfiado. Pelúcia vermelha ruça. Cheiro acre exalado no ar viciado. Úmido, azedo. Fumaça traída pelos focos de luz. Esgueirou-se rente. Discreto. Rato.
Bêbados, prostitutas. Estava deslocado. Encolhi a mesa na sombra de uma coluna.
The Blue Velvet. Willis Jacson. O saxofonista embriagado podia ser. Soprava longe, palco perdido. Talvez num cabaré de Hollywood.
Pintura exagerada. Borrada no rodar da noite. Pupilas negras pinçadas por olhos amendoados. Americanos. Seguiram cada movimento. A mestiçagem escondia o destino.Cheiro de creme barato. Melando. Corpo de mulher vivida. Seguia o padrão.
Rasgo, metade da coxa. A pele nua da perna. Vestido justo. Acinturado. Zíper tenso desde os quadris largos. Seios firmes, bonitos. Cabelos cacheados, negros. Lábios grossos. Rosto abaixado, olhar para cima. Mas sem arrogância. Apenas para intimidar. Dominar. A sensualidade exercendo o controle.
Sotaque espanhol, dialeto. Havia algum português nele. Sentou-se ao meu lado. Insinuante. Artes do ofício.
Uísque a desinfetar o copo. Indiferença fingida. Parte da regra. Depois suspiro mentido compondo a cena. Comum. Como ambos. Sabiam. Mas ele não buscava a fêmea. Não poderia confidenciar as dores. Dos dias. Do coração. Precisava da companhia.
Teve que ouvir cada lamento meu. Como de todos.
Sabia dos atalhos. Mero negócio. Percebeu a persistência da ausência. E o desejo ligado a ela. Preencher o vazio. Fazer com que fosse ignorado. Teve que avaliar.Outros dois uísques. A ausência acabou por se diluir na bebida. Não havia mais sobriedade a se perder na libido. Na provocação sem pudor. Tinhosa, ela abriu um botão, expôs o recôndito dos seios. Transpirava sensualidade. Foi quando revelou o dragão de jade na pele morena. Os olhos dele devoraram a peça. Não entendeu a fixação. Ela percebeu o falsear.
Delicada, não insistiu. Mas precisava faturar. Esvaziou a bolsa. Com algum despeito. Badulaques caíram entre as marcas de copos. Dragões de jade. Ofereceu um pelo preço da noitada. Bonito, ordinário, barato. Como ela. Condicionei a compra. Queria a lenda.
Franziu o rosto. Contrariada. Mas não restava noite para compensar. Alertou das conseqüências. O conhecimento a despertar a magia. Quaisquer fossem as palavras de quem tivesse o dom. Talismã criado de um objeto inerte. Por fim cedeu. Fez um sinal de pouco caso com os ombros. Maldição, sorte. Deixou à vida.
A paixão entre um negro e a concubina. Denunciaram. O imperador não o decapitou. Condescendência divina para quem havia lutado por ele. Mas não perdoou. Aprisionou as almas num dragão de jade. Ela foi confinada. O guerreiro expatriado.
A ausência, tortura. Castigo, o destino nas mãos. Algoz, o talismã. O inferno de um dilema entre partir a pedra e a liberdade provocada por isso. Tanto na palma da mão. Os olhos da concubina luzidios no brilho do jade. A envolver. A impedir. Decidiu pela paixão que consumia.
Encanto. Yu, o Dragão de Jade, protetor. A Tigresa Branca, amante. Oriente, não o ocidente incrédulo. Aeroporto de Curaçao ao lado. Último bordel. Havia trocado o papiamento pelo espanhol. Aprendeu, clientes. Da mãe. Depois com seus.
Antes da morte dela recebeu a caixa dos charutos. Cubanos. O que restava de uma vida. O dragão de jade dentro. Inevitável. Procurava quem possuísse o dom. Evitou pensar. Céptica. Precisava de um sonho. De uma paixão que a transportasse. Que ludibriasse a razão.
As histórias da avó. Dos ancestrais, Ghana. Das sacerdotisas de Nanã Akonedi Abena. Vodum, pó branco no corpo exposto, sagrado. Brajás. Saia de palha, torço na cabeça, rosto nu da justiça. A desatar feitiços, magias.
A iniciação. Derradeiro dia de vida da mãe. O poder de fazer a pedra fluir. Deixou-se mas não se importou. Continuou à deriva. África, lenda. Perdida no tempo. Avó, mãe, neta. Nada além. Apenas negras. Resto de escravidão. Bastava o que conseguiam do dia. Histórias contadas, tambu. Mas ela não lamentava. Nem conhecia outro jeito. Até encontrar o marinheiro português. Foi abandonada no Rio de Janeiro.
Contou da ferida aprisionada na jóia. Da proteção. Akonedi se opondo ao destino. Intuindo a desfazer o feitiço. A quebrar aquela pedra. Mesmo paga com indiferença. Conhecia os homens.
Executiva. Roupa bem talhada, discreta. Note, tiracolo. Ponte aérea Rio-São Paulo. Mesa pronta, sempre. Trabalho exaustivo. Da cabeceira fitava sobre os óculos. Aros dourados, finos. Mas sem arrogância. Apenas para intimidar. Ficava entre a admiração e o ódio.
Não que sua vida fosse dolorida. Até se conformava. Preenchia o projeto. Investiu nessa linearidade. Não havia alternativa. Entendeu com sobriedade.Papel do filho que o pai queria. Poderia ter querido a filha. Ela sempre soube. Firmou-se por competência. Antecipava os passos, negócios. Mais por intuição que lógica. Não entendia isso. Disciplinou o comportamento para esconder o dom. Abusava. Vencia sempre. Mesmo assim não se tornou o filho por quem o pai suspirava. Impôs-se por limite a beira dos erros. Além, cadafalso. Havia dureza pelo ressentimento.
O marido, homem do interior. Paixão de adolescência. Casamento cômodo. Marcado pelos objetivos dela. Não questionava. As regras do jogo entre ambos tinham lisura.Quadris largos. Seios firmes, bonitos. Cabelos cacheados, negros. Olhos amendoados. Lábios grossos. Brasileira. Mais a mãe. Do pai, a pele alva. Tudo confinado na austeridade. Mesmo as roupas. Sisudas, profissionais. Deixava o encanto em casa.
Indústria, máquina domesticada. Bancava a cidade pequena. Mãos delicadas, aço. Fez os dias até a rotina. Então as noites ficaram longas. Tempo de sobra. A vida teve esse tempo para cobrar o viver. Latente, a insistir.
Era uma madrugada de lua, varanda. Só. Mulher. Suspirou. Pela emoção da incerteza. Por labirintos, caminhos incertos, desalinhados. Por uma paixão. Um outro lado. Estava tentada a descobrir. Mas não o buscou. Apenas se deixou. Seguiu a intuição.Avião. Rio de Janeiro. De repente os dias prescritos ficaram remotos. Rascunhou o e-mail. Algumas vezes. Palavras doces, cruéis. A desistir de si. Do modelo. Mas não o fez. Sabia porque.
Um homem bonito. Quase elegante não fossem as roupas baratas. Percebeu o interesse. Aquiesceu. Sutil. Depois um sufoco. Nunca tinha vivido esta experiência. O olhar, a textura da pele, o hálito, a voz. Tudo mudou. Mãos suadas, garganta seca. Sensação tola furtada de um gibi. Adolescente dos anos dourados. Avião da Panair. Copacabana Palace. Quis ser personagem.
Estava na solidão da sua sala ao receber o pacote. Pequeno, pessoal. Leu o remetente. Sorriu. Trancou a porta. Um momento dela. Apenas. Relaxou no sofá. Releu o e-mail. Centésima vez. Rememorou cada detalhe do encontro. Intervalo de uma vida insana. Curto, suficiente. Excitou-se. Não era a intenção. Então o atrevimento da personagem. Tocou-se até o prazer. O orgasmo, final. Lavou-se como a se despir. Abriu a porta. Perfeita, inquestionável.
Envio o talismã. Quem sabe armadilha. Confio nos estranhos caminhos do acaso. Talvez haja mais. Mas pode ser que tudo não tenha passado de um conto. Derradeiro. Impossível.
Não importa. Eu me tornei refém da personagem. Prisioneiro por querer. Por entender ser isso o resgate do que me sobra. E sinto a dor de ter me perdido numa vida miserável. Maior do que a tortura da ausência. Assumi o sonho. O embaraço da dicotomia pelos dias afora.
A magia. A trama. Tanto a nos colocar juntos. A emoção de uma vida contida numa meia tarde. Pouco. Eu a tomei como se fosse eterna. Mas sem cumplicidade nada restara além do jade partido. Saiba porém que se a liberdade pouco valer, as lembranças, menos que um consolo, serão uma tormenta.
O avião decolou. Deu a volta na baia antes de tomar rumo. A mesma poltrona. Estava exaurido. Parecia sereno. Indiferente, desinteressado. Fábula da raposa e a uva. A alma fervia.
Espera passiva, resignação corrosiva, silêncio aflito, incerteza. Filme noir. Cenário de Blad Runner. Roteiro sórdido.
O dragão de jade jamais voltou. Perdido numa gaveta. Como estava perdido numa caixa de charutos cubanos.
A ponte. O reencontro das irmãs. Uma iniciação a ser cumprida. De quem chegou em Mauritsstad. Inevitável. Agora dependia apenas de que uma gaveta se abrisse. Akonedi tinha o tempo. Podia manipular sem pressa.
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